Eu digo pode entrar, o mundo é seu.
Você diz obrigada por ser minha amiga. Nunca antes essas palavras haviam doído
assim. Enquanto você percorre as estradas procurando o número vinte e quatro,
aproximando-se de casa e distanciando-se de mim, vou perdendo a vergonha de
chorar, “como se o mundo existisse apenas ali.” Devia ter chorado todas as
vezes que senti vontade. Como quando não consegui alcançar o cruzeiro. Mas não
choraria por medo da altura, e, sim, por entender o que sempre tentou dizer nas
entrelinhas que eu ignorava, fingia não ver. E vou perdendo a vergonha de
chorar. Vergonha de quem? Há tantas pessoas que se importam meu Deus! Há, há,
há... Não sou a vadia que penso que penas que sou. Você não é o monstro que
pensamos ser. Eu que o sou quando muda imploro que me ame. Por favor, não
faça votos que não poderá cumprir. Isso é pecado. Pequemos juntos, então, para
que possas dividir a culpa, mas também o prazer e, quem sabe, o perdão. Afinal,
amigas são para essas coisas...
Voltando às pedras, não chorei lá no
alto, sequer cantei a canção que havia escolhido para você. Não podia sangrar
mais uma vez. Não podia me jogar daquela pedra porque sou forte, sou forte para
amar um poeta; para continuar querendo-o como o quis desde o primeiro beijo sob
a árvore. “Olhe para mim borboleta.” O poeta que me faz ler mais do que
palavras; que me faz ver coisas lindas, como ele mesmo vê com seus olhos verdes
ou azuis, quando há luz; é poeta até com sua humildade que começa quando tira
os seus óculos e se torna menor ainda do que é diante do universo. Os
poetas não podem ser amados. A realidade é um fato, mas estes vivem do ideal. E
nós –eu- não idealizamos os poetas? Mérito? Reticências...
Quem mais pode ver o monstro em mim?
Quem mais pode ver ou aplacar a fúria que me faz voltar a acreditar na
Flor-mais-Bela? Será que não me conheces o bastante para saber o que espero? Ou
continuo não sendo suficiente para merecer aquilo que tanto buscas dar a outra
que ainda não conheces? Mostro os meus medos quando serena, aceito o teu sim e
o teu não. Por que temes a solidão se estou aqui/ai? Por que temes não ser
aceito se já te aceitei? Antes, aceitas a ti mesmo. Deve ser o mérito de ser um
monstro.
PS: Ainda te amo.
13.10.2013
A.M.