domingo, 20 de abril de 2014

Mérito ou monstro?

Eu digo pode entrar, o mundo é seu. Você diz obrigada por ser minha amiga. Nunca antes essas palavras haviam doído assim. Enquanto você percorre as estradas procurando o número vinte e quatro, aproximando-se de casa e distanciando-se de mim, vou perdendo a vergonha de chorar, “como se o mundo existisse apenas ali.” Devia ter chorado todas as vezes que senti vontade. Como quando não consegui alcançar o cruzeiro. Mas não choraria por medo da altura, e, sim, por entender o que sempre tentou dizer nas entrelinhas que eu ignorava, fingia não ver. E vou perdendo a vergonha de chorar. Vergonha de quem? Há tantas pessoas que se importam meu Deus! Há, há, há... Não sou a vadia que penso que penas que sou. Você não é o monstro que pensamos ser. Eu que o sou quando muda imploro que me ame.  Por favor, não faça votos que não poderá cumprir. Isso é pecado. Pequemos juntos, então, para que possas dividir a culpa, mas também o prazer e, quem sabe, o perdão. Afinal, amigas são para essas coisas...
Voltando às pedras, não chorei lá no alto, sequer cantei a canção que havia escolhido para você. Não podia sangrar mais uma vez. Não podia me jogar daquela pedra porque sou forte, sou forte para amar um poeta; para continuar querendo-o como o quis desde o primeiro beijo sob a árvore. “Olhe para mim borboleta.” O poeta que me faz ler mais do que palavras; que me faz ver coisas lindas, como ele mesmo vê com seus olhos verdes ou azuis, quando há luz; é poeta até com sua humildade que começa quando tira os seus óculos e se torna menor ainda do que é diante do universo.  Os poetas não podem ser amados. A realidade é um fato, mas estes vivem do ideal. E nós –eu- não idealizamos os poetas? Mérito? Reticências...
Quem mais pode ver o monstro em mim? Quem mais pode ver ou aplacar a fúria que me faz voltar a acreditar na Flor-mais-Bela? Será que não me conheces o bastante para saber o que espero? Ou continuo não sendo suficiente para merecer aquilo que tanto buscas dar a outra que ainda não conheces? Mostro os meus medos quando serena, aceito o teu sim e o teu não. Por que temes a solidão se estou aqui/ai? Por que temes não ser aceito se já te aceitei? Antes, aceitas a ti mesmo. Deve ser o mérito de ser um monstro.

PS: Ainda te amo.


13.10.2013
A.M. 

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